"Raskólnikov, em frente ao rio Neva, em São Petersburgo, capital da Rússia czarista do século XIX, cenário muito recorrente no desenvolvimento da obra." (Imagem gerada por Inteligência Artificial)
"CRIME E CASTIGO", DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI
Nesses dois últimos anos, decidi me aprofundar nos estudos da literatura russa, sobretudo na era dourada do século XIX, em que se destacaram autores como Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Ivan Turgueniév, dentre outros.
Apesar de decidir me dedicar à leitura dos clássicos russos nesse período, o meu primeiro contato com os grandes escritores oitocentistas ocorreu há mais de dez anos.
Lembro-me de que estava no verão de 2013, no auge dos meus imaturos e descompromissados vinte anos. Naquela época, já residia em Curitiba e, arrogantemente, considerava-me o dono da verdade. Chegava a ser taxativo em minhas opiniões e posicionamentos. De maneira irrefletida, julgava que a minha última palavra deveria ser lei ou, quem sabe, jurisprudência consolidada. Não ponderava sobre as divergências de personalidades e de pontos de vista. Em resumo, faltavam-me empatia e sentimento de altruísmo.
Ocorre que o destino, providencialmente, colocou à minha vista, na prateleira de um supermercado "X", o livro "Crime e Castigo". A minha atração, a princípio, deu-se por conta do título chamativo e instigante. Adquiri o romance de modo impulsivo e imponderado. Jamais podia imaginar que a leitura de um livro escrito em 1866 poderia me trazer tanta identificação com a realidade brasileira, tanto aprendizado e tanta maturidade psicológica.
Quando eu mencionei, no parágrafo anterior, que o destino foi providencial ao me escancarar, sem aviso, um livro tão impactante como "Crime e Castigo", não exagerei, tampouco carreguei nas tintas. Simplesmente foi algo místico, mágico e enigmático. A impressão que me passou foi a de estar no lugar certo na hora certa. Minhas impressões mudaram. A cada página lida, uma nova descoberta de mim mesmo. A cada ato finalizado, uma redescoberta do sentido da vida e do senso de empatia e de respeito pelo próximo.
Rodion Romanovitch Raskólnikov. Personagem controverso, taciturno, introspectivo. Ao decidir tirar a vida da usurária Alíona Ivanovna, uma senhora, segundo a concepção dele, repugnante, avara e egoísta, Raskólnikov não queria meramente usufruir do patrimônio dela, adquirido a troco de agiotagem e de oportunismo. Ródia, como era carinhosamente chamado pela sua irmã, Dúnia, e por sua mãe, Pulkhéria Alexandrovna, queria testar a sua capacidade de ser alguém acima da média, vale dizer, um ser humano superior aos demais, desprovido de preocupações éticas e morais. Para ilustrar isso, Ralskolnikóv colocava Napoleão Bonaparte como um parâmetro que deveria ser seguido. O seu objetivo era aplicar na prática a tese de que se livrar de um "piolho" em prol de um bem comum era um sacrifício necessário para o progresso da humanidade.
Há de se ressaltar, contudo, que a sua pretensão e o seu plano milimetricamente premeditado não saíram como deveria. Em primeiro lugar, porque, após a consumação do latrocínio em face da "velha usurária", Ródia não contava que a irmã caçula dela, Lisavieta, chegaria de inopino, surpreendendo-o no local do crime, ocorrido no apartamento da agiota, no quarto andar de um prédio de São Petersburgo. Desse modo, não restou outra alternativa para Raskólnikov. Para garantir a impunidade do primeiro delito cometido, ele teve de matar uma pessoa inocente, a qual não lhe fez mal algum e, ainda por cima, era uma vítima das atrocidades cometidas pela própria irmã, que a maltratava e a subjugava como se fosse a sua empregada.
Dois crimes consumados. Um, planejado minuciosamente enquanto ruminava seus pensamentos fixos e obstinados em um apartamento exíguo, insalubre e claustrofóbico, onde residia sozinho. O outro, praticado no calor da emoção, à flor da pele, em um instante de desespero e de insanidade. As consequências dos seus atos começaram a repercutir muito antes de uma punição formalizada pelo Estado-juiz. O castigo, imediatamente após os crimes, surgiu na mente e no coração de Raskolnikóv. Na mente, com pensamentos controversos e com frequentes remorsos. No coração, por meio de sentimentos de autopiedade, refletindo, também, sobre a sua saúde física.
Raskólnikov, que era tão compenetrado em seus desejos e em suas vontades, após o cometimento dos delitos, viu-se jogado para as mazelas da sociedade persterburguesa do século XIX, principalmente ao se ver envolvido no drama de Sônia, uma jovem que se viu obrigada a se prostituir com o intuito de auxiliar a família que o seu pai, Marmeládov, adquiriu quando se casou com Katerina Ivanóvna, tendo com ela mais três filhos. Sônia, como filha mais velha, solidarizou-se com o drama do pai, que destruiu a posição social como funcionário público por conta de ser um ébrio habitual. Ademais, Sônia sentia-se impelida a auxiliar os seus irmãos caçulas, porquanto além do pai alcóolico, a mãe das crianças era tísica em estado de doença avançada.
Nesse contexto, Raskolnikov se humanizou ao penetrar no seio de uma família problemática. Desse modo, Dostoiévski, em sua narrativa voltada para as ações dos personagens, jogou o seu grande protagonista a uma nova tragédia pessoal, pouco tempo após os dois assassinatos cometidos por ele. Nem sequer deu tempo para Raskólnikov se recuperar de seus súbitos desmaios e de seus remorsos constantes. Ao perambular pelas ruas de São Petersburgo, quando estava disposto a se entregar para a polícia, deparou-se com um acidente, com um aglomerado de pessoas, com um cocheiro desesperado e com um acidentado quase desfalecido no chão.
A vítima do acidente? Justamente Marmeládov, pai de Sônia. Nesse sentido, o cenário de miséria e de desespero, que já havia obrigado Sônia a se prostituir para sustentar a sua família, atinge o seu ápice com a tragédia que se abate sobre o seu pai. Enquanto Raskólnikov perambulava pelas ruas de São Petersburgo, compenetrado em seus complexos devaneios, ele depara-se justamente com o acidente que envolve Marmeládov, encontrando-o "quase desfalecido no chão". Este evento é crucial, pois, ao penetrar no seio desta família problemática, Raskólnikov, o assassino de duas vidas, é forçado a confrontar o sofrimento humano em sua forma mais crua e a se humanizar em meio às mazelas da sociedade petersburguesa do século XIX. É neste momento que ele é jogado em uma nova tragédia pessoal, mesmo sem ter se recuperado de seus remorsos constantes.
Não me alongarei mais na narrativa dos fatos, sob o risco de privar o leitor da descoberta de uma das maiores obras da literatura mundial. Se Raskólnikov é o epicentro da ambiguidade moral e psicológica, um homem dividido entre sua tese de "super-homem" e a torrente de sua consciência, os demais personagens formam um universo fascinante que o envolve e o transforma.
Vocês serão inevitavelmente atraídos pela pureza e resiliência de Sônia, cujo sacrifício eleva o sentido da empatia e da humanidade, algo que Raskólnikov buscava (e precisava) redescobrir. Mas o romance também o confrontará com a sordidez de Svidrigáilov, a mesquinhez calculista de Lujin, a lealdade inabalável e a generosidade de Razumíkhin, e a dignidade firme de Dúnia.
"Crime e Castigo", portanto, não é apenas sobre um crime e a punição formal; é sobre o castigo interno e o julgamento da alma, ambientado nas ruas insalubres e claustrofóbicas de São Petersburgo. Ao virar a última página, você não apenas terá lido um clássico, mas também terá feito uma "nova descoberta de si mesmo", reavaliando o seu próprio senso de altruísmo e de empatia, bem como buscando novos rumos e sentidos para a própria vida.
(Recomendações de traduções diretas do russo: Rubens Figueiredo, Editora Todavia; Paulo Bezerra, Editora 34).