Renan Fernandes

Lutando nessa guerra interna

Textos


"O VERMELHO E O NEGRO: CRÔNICA DO SÉCULO XIX", DE STENDHAL

 

Publicado em 1830, "O Vermelho e o Negro: Crônica do Século XIX", escrito por Henri-Marie Beyle, mais conhecido pelo pseudônimo Stendhal, é considerado o primeiro romance psicológico da literatura universal. A trama central gira em torno do jovem arrivista Julien Sorel, o qual inicialmente reside na fictícia cidade francesa de Verrières e guarda um grande fascínio pela figura de Napoleão Bonaparte. Ocorre que, na época da ambientação do romance, o bonapartismo já havia perdido força na Europa e, como consequência, os adeptos de seus ideais políticos não eram bem-vistos na sociedade pós-napoleônica. Nesse contexto, Sorel, figura ambígua, introspectiva e introvertida, mantinha as suas convicções políticas sob sigilo, camuflando-se como um mero indivíduo com ambições para a carreira eclesiástica.

 

A trajetória do anti-herói do romance é dividida em duas partes. Na primeira, mostra-se a sua rotina na cidadezinha fictícia mencionada no parágrafo anterior. Lá, ele vive com o seu pai e com os seus dois irmãos, com quem mantém uma relação problemática. Enquanto a sua família trabalha na carpintaria, Julien compenetra-se em seus devaneios e nas suas sigilosas ambições pessoais. Lê livros que remetem à glória de Napoleão Bonaparte. Almeja sair da sua condição de existência provinciana e sem perspectiva. Nutre em seu íntimo aspirações grandiloquentes, como ingressar no exército ou no clero. E, diante disso, consegue, por intermédio do cura Chélan, a primeira chance de executar as suas pretensões calculistas. Sorel passa a trabalhar como preceptor dos filhos do prefeito da cidade de Verrières, o Sr. De Rênal. E, a partir do ingresso na vida íntima da família deste, conhece a jovem esposa do prefeito, a Sra. de Rênal, com quem começará a desenvolver uma relação extraconjugal marcada por paixões insensatas, por ciúmes doentios e por manipulações.

 

Não entregarei todos os pormenores do conflito conturbado que ocorrerá entre os membros da família De Rênal por conta do ingresso de Julien Sorel na vida deles. Contudo, posso garantir aos leitores que a narrativa explorará as camadas de relações interpessoais complexas dentro do contexto de uma alta sociedade hipócrita, dissimulada e repleta de segredos. Apenas pontuo que, após a passagem intensa e explosiva de Sorel na fictícia cidade de Verrières, o romance dá entrada à sua segunda fase, quando ele foge para a cidade de Besançon e, de lá, fica um tempo recluso em um seminário, em cujo local envolve-se nas intrigas de disputas clericais e religiosas.

 

Contudo, a sua passagem no seminário de Besançon é breve. Pois Sorel continua cultivando, dentro de si, ambições desmedidas que transcendem fronteiras geográficas. Nesse sentido, outra grande oportunidade de ascensão social surge na vida deste controverso personagem. Dessa vez, com a influência do abade Pirard, Sorel muda-se para Paris e começa a trabalhar como braço direito do Marquês de La Mole, ingressando, como consequência, na vida privada de seu novo superior hierárquico. Após isso, ele envolve-se com a filha do Marquês, a esnobe Mathilde. E, assim, nessa segunda relação romântica, a trama aprofunda-se nas contradições psicológicas do nosso protagonista, o qual ora demonstra utilizar Mathilde como um mero mecanismo de arrivismo social, ora deixa subentendido que, de fato, está envolvido emocionalmente pela sua nova paixão. 

 

Diante do panorama exposto, pode-se depreender, equivocadamente, que o romance gira em torno tão somente das relações afetivas e conturbadas entre Julien Sorel e seus dois grandes amores, Sra. de Rênal e Mathilde. Contudo, o desenvolvimento da narrativa vai muito mais longe do que isso. Pois são exploradas, em profundidade, as contradições de personagens complexos dentro de um contexto histórico efervescente, como é a época da França pós-napoleônica. Assim, intrigas políticas, filosóficas e jurídicas pincelam a narrativa daquele que é considerado o livro pioneiro do realismo mundial. E o clímax da história, marcado por um destino inclemente ao ambíguo Julien Sorel, até hoje causa um grande impacto e uma grande comoção para os fãs ardorosos da literatura clássica.

 

Por conseguinte, vale a pena ler esse longo romance, de mais de 600 páginas. Apesar do volume extenso, a narrativa ágil e psicológica de Stendhal é um indicativo de que "O Vermelho e o Negro" é um romance contemporâneo, atual e relevante, mesmo tendo sido escrito há quase duzentos anos. 

(Renan Fernandes)
Enviado por (Renan Fernandes) em 14/12/2025
Alterado em 14/12/2025
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